Editoriais Orthodontic Science and Practice – Edição 55

No dia 30 de julho nosso Guru, o Professor Doutor Guilherme Janson nos deixou prematuramente. A revista Ortho Science não poderia deixar de prestar a sua homenagem ao maior pesquisador da Ortodontia brasileira e frequente colaborador da revista. Três pessoas muito próximas ao Dr. Guilherme foram convidadas para escrever esse tributo. Como ex-aluno e amigo pessoal sinto-me muito representado pelas palavras escritas. Com certeza, ele nunca será esquecido.
Dr. Alexandre Moro

Um dos grandes expoentes da Ortodontia mundial, o professor Guilherme Janson se formou cirurgião-dentista em 1980 pela FOB-USP, onde também concluiu mestrado (1983) e doutorado (1985) em Ortodontia.

Pós-Doutor pelo Departamento de Ortodontia da Faculdade de Odontologia da Universidade de Toronto, Canadá (1991), foi apontado em 2019 como o segundo pesquisador mais influente na Ortodontia mundial, em ranking que levantou as citações pelos pares em artigos científicos publicados entre 2007 e 2017.

De família tradicional de cirurgiões-dentistas, o professor Guilherme Janson era neto Emílio Janzon, um dos primeiros profissionais de Odontologia de Bauru, e filho de Waldyr Antonio Janson (falecido em 2014), um dos pioneiros e mais eminentes docentes da FOB-USP, que teve participação ativa para a implantação da Faculdade, em 1962. Além de Guilherme, os irmãos Marcos, Reinaldo e Vinicius também são cirurgiões-dentistas, e a irmã Suzana, nutricionista.

A homenagem completa a Guilherme Janson você confere clicando aqui.

Prof. Dr. Alexandre Moro
Diretor Científico

Para onde caminha a Ortodontia em 2021?  

Nos últimos anos fiz esta mesma pergunta nesta coluna e respondi baseado na programação científica dos congressos da Associação Americana de Ortodontia que aconteceram em Chicago, Honolulu, Filadélfia, New Orleans, San Francisco, Orlando, San Diego e Washington.

Vamos repeti-la agora com a programação do congresso de 2021, que da mesma forma que o de 2020 aconteceu de forma virtual, só que um pouco mais aprimorado.

Foram 3 dias de congresso, de 25 a 27 de junho, com 4 salas virtuais concomitantes. Duas foram para as palestras em geral, uma para o gerenciamento do consultório, e outra para os palestrantes das empresas. As palestras, na sua maioria, tinham duração entre 25 a 45 minutos.

Após avaliar a programação, dividi as apresentações em 20 assuntos diferentes. Os que mais foram abordados e o número de apresentações foram: Alinhadores Removíveis com 25, sendo 15 sobre o Invisalign; Administração do Consultório com 20; Ortodontia Digital com 12; Cirurgia Ortognática com 7; Tratamento da Classe III com 6 apresentações.

Poucas palestras aconteceram sobre: Biomecânica; Laser; Apneia do Sono; Dentes impactados; Tomografia Computadorizada. Alguns tópicos continuam perdendo a sua relevância e não tiveram nenhuma apresentação: Bráquetes Autoligáveis, Reabsorção Radicular; Ortodontia Lingual.

Poderíamos afirmar que este foi o congresso dos alinhadores e da administração do consultório. O tema alinhadores “In-house” está ganhando força e parece ser uma tendência. Já na parte da administração, a tecnologia também está na moda com o aumento das consultas virtuais e monitoramento a distância dos tratamentos, graças a Pandemia do COVID 19.

O número de palestrantes brasileiros ficou em 7 neste ano. Nossos representantes foram: Daniela Garib, Jorge Faber, Lucia Cevidanes, Eustáquio Araujo, Flavia Artese, Weber Ursi e Marcio Almeida. Esse número é excelente, se pensarmos que a programação virtual exigiu uma diminuição da grade. Isso mostra o prestígio da Ortodontia brasileira.

Um fato que me chamou a atenção foi a pequena participação dos ortodontistas brasileiros na audiência. Isso foi comprovado em conversas com colegas que normalmente frequentam o congresso americano, e também observando os comentários nas redes sociais. Quais seriam as explicações para isso?  O alto custo da inscrição: 490 dólares; ou o fato das pessoas já estarem cansadas de assistirem palestras online?

E quais são as conclusões após essa avaliação do evento?

O tempo passa, mudam-se as ferramentas para o tratamento, e sempre o ortodontista americano está cada vez mais preocupado com a administração do consultório e com o marketing. O consultório é uma empresa que deve ser bem administrada. Os alinhadores vieram para ficar e não há retrocesso, e sim progresso, tanto na qualidade dos tratamentos quanto na sua forma de confecção e entrega ao paciente.

Prof. Dr. Alexandre Moro
Diretor Científico

Editorial – Caderno Digital Dentistry in Science

Prof. Dr. Mauricio Accorsi

Diretor Científico DDS-BR

O fair play odontológico

Um apaziguador é alguém que alimenta um crocodilo esperando ser o último a ser devorado. Winston Churchill

O saldo dos últimos Jogos Olímpicos em Tóquio é muito positivo para a delegação brasileira e representa o melhor resultado da história, mesmo em meio ao momento extremamente delicado que estamos vivendo de Pandemia. Naturalmente, isso traz algumas reflexões e valiosos ensinamentos. O primeiro deles é de que sempre é possível nos superarmos, especialmente em meio às adversidades, se os nossos objetivos forem de fato valorosos, como bem representar o nosso país, em uma grande batalha que acaba sendo travada muito mais internamente do que com os adversários. O esporte nos traz grandes lições, como o conhecido conceito de “fair play[1]”, que significa jogar limpo, ter espírito esportivo. Nós tivemos inúmeros bons exemplos de vencedores de “sangue bom”, como da nossa fadinha, a skatista Rayssa Leal, da ginasta Rebeca Andrade, do canoísta Isaquias Queiroz, entre tantos outros.

Na Odontologia, nós poderíamos traduzir “fair play” como “ética profissional”, e aí nossa atuação passa a ter um enorme papel na vida em sociedade, na medida em que um comportamento ético significa não somente cumprir as regras do jogo de forma a não prejudicar os concorrentes, mais precisamente nossos colegas de profissão; mas principalmente, no sentido de agir de forma a enaltecer os princípios morais e valores que definem a Odontologia enquanto profissão da área de saúde. Lamentavelmente, a realidade é algo bem mais assombroso e preocupante. Em 2022 completo 30 anos de formado e tenho a impressão de estarmos vivendo o período de maior crise ética na Odontologia Brasileira, nas últimas décadas, onde muitas vezes o inimigo mora ao lado.

No esporte, a influência do marketing multimilionário e a pressão da mídia influenciam fortemente os atletas a obterem melhores resultados, fazendo com que muitos deles pensem na vitória como algo a ser obtido a qualquer custo, lançando-se mão de meios ilícitos como o doping, a manipulação genética, entre outros, quebrando assim os princípios fundamentais do “fair play”.

Na Odontologia, a pressão vem em grande medida das redes sociais e também de alguns fabricantes, em geral megacorporações de capital aberto que querem vender seus produtos a qualquer custo, e para isso se utilizam de abordagens extremamente predatórias, absolutamente antiéticas e muitas vezes ilegais. Em um país em que parte das instituições é viciada e quem deveria nos proteger e regulamentar o exercício profissional acaba por acobertar comportamentos condenáveis, resta-nos tentar entender de onde vem essa sanha insaciável pelo poder, pela fama e pelo dinheiro, ao menos como legado para as próximas gerações.

E aí retornamos para o Japão, país em que tive a oportunidade de visitar por três vezes, e para o qual voltarei por mais trinta, se Deus permitir. Essa admiração explícita e notória não vem apenas da espetacular gastronomia, ou das inovações tecnológicas, muitas das quais pudemos observar em tempo real durante as Olimpíadas, mas principalmente da altíssima qualidade de vida da qual desfrutam os japoneses, fruto da essência de sua cultura milenar que é o espírito de coletividade, algo que naturalmente explica essa qualidade de vida inestimável. Honra é algo que os japoneses levam muito a sério e do qual não abrem mão. Infratores envergonham fortemente suas famílias e seus pares, e muitas vezes a única maneira de salvar-se do fogo eterno da desonra é abrir o próprio ventre, por meio do Seppuku[2]

Esse código de ética social, esse espírito de coletividade é algo que se respira no Japão e representa um grande exemplo a ser seguido, especialmente por nós, brasileiros, onde a “regra” é exatamente o oposto, ou seja, o individualismo puro e simples. Nossas mazelas intermináveis podem ser muito bem definidas pela máxima: “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Profissionalmente, esse “individualismo puro e simples” pode ser traduzido por um comportamento mercenário, típico de quem desconhece o significado de altruísmo e o valor da honra. Muitas vezes, o lobo em pele de cordeiro age como um falso profeta, iludindo seus pares por meio de um comportamento supostamente virtuoso, ao mesmo tempo em que age nas sombras, manipulando as pessoas a sua volta, para poder se vender por algumas poucas moedas.

Ao contrário do que pensamos, não vivemos realmente nesse “mundo glamoroso” das redes sociais, ainda que elas sejam divertidas e, de certa forma, úteis para nós. Nosso encontro diário com a realidade se dá todos os dias, mais precisamente todas as noites, quando deitamos nossa cabeça no travesseiro e somos solitariamente e, implacavelmente, confrontados pela nossa consciência. Entretanto, não precisamos manter uma Katana de prontidão, em caso de deslize, pois homens de boa índole, de bom caráter também erram, e erram muito. O caminho da redenção inicia-se por admitir os próprios erros, tirando-se sempre os melhores ensinamentos de cada evento que acontece em nossas vidas, compartilhando essas lições com todos.

Para deixar um futuro melhor para nossos colegas mais novos, para nossos filhos e para a sociedade, precisamos aprender o valor do bom exemplo e para isso é necessário passar mais tempo no mundo real e menos no “mundo externo”, onde estão todos os holofotes, as vaidades e as pressões intermináveis.

Para manter nossa consciência em paz, precisamos avaliar cuidadosamente nossas escolhas, pois nem sempre o que é bom para nós, individualmente, é bom para o grupo, para a profissão e para a sociedade. Sucesso profissional e retorno financeiro são absolutamente legítimos e devem ser buscados, mas não a qualquer custo, não por meio do pragmatismo traiçoeiro e insensível, e certamente, não por meio da omissão covarde. Infelizmente, falar a verdade no Brasil, baseando-se em fatos e em bom senso é tornar-se vítima do escrutínio público, mas são os “troublemakers”, ao contrário dos “apaziguadores”, que representam a última linha de resistência frente a total desconstrução que está sendo levada a cabo na nossa profissão, e puramente por conta de interesses financeiros espúrios. Winston Churchill[3], o maior herói do Século XX, é quem nos traz a grande lição da vida: “nunca ceda, nunca ceda, nunca, nunca, nunca, nunca – em nada, grandioso ou pequeno, significativo ou trivial – nunca ceda, exceto às convicções de honra e bom senso. Nunca ceda à força; nunca ceda ao poder aparentemente opressor do inimigo”.

Falando em homens de honra, citamos na edição passada os americanos Henry Naoum e John Sheridan e nesta edição escolhemos o grande professor Sebastião Interlandi, que foi o primeiro Professor Titular do Departamento de Ortodontia e Odontopediatria da FOUSP e quem criou em 1966, o primeiro Curso de Pós-Graduação em Ortodontia do Brasil. Ele foi aluno de mestrado do icônico Professor Charles Tweed, na Universidade de Saint Louis, nos EUA, e o grande mentor de gerações de ortodontistas brasileiros, que receberam os primeiros ensinamentos da especialidade na “Fazenda Arco de Canto”, em Bragança Paulista, no interior do estado de São Paulo. Muito criativo, inovou nos campos do diagnóstico, com destaque para a “Linha I”, e na mecânica, com o Interlandi Headgear.  Publicou livros com o pensamento em seus alunos, mas com o coração junto aos seus pacientes menos favorecidos, os de “pezinho no chão”, como gosta de se referir a brilhante Professora Solange de Mongelle Fantini, uma de suas discípulas e também sua esposa, com quem dividiu sua vida por décadas até a sua partida para o plano superior em 2019.

O professor Interlandi cultivou com igual entusiasmo o amor pelas letras, sendo autor de poemas de sensibilidade ímpar. Arrojado, escolheu a aviação para se lançar aos céus, em busca de um olhar mais claro e profundo sobre sua existência e assim, influenciou positivamente a vida de muitos e, sem dúvida, é merecedor dessa nossa singela homenagem.

[1] Fair play é uma expressão do inglês que significa modo leal de agir, jogar de maneira a não prejudicar o adversário de forma proposital.

[2] Como parte do código de honra do Bushido, o Seppuku era uma prática comum entre os samurais, que consideravam a sua vida como uma entrega à honra de morrer gloriosamente, rejeitando cair nas mãos dos seus inimigos, ou como forma de pena de morte frente à desonra por um crime, delito ou por outro motivo que os difamasse.

[3] Em discurso realizado no dia 29 de outubro de 1941, para os alunos da Harrow School, em Londres, em plena 2ª Guerra Mundial.

Dr. Mauricio Accorsi
Diretor Científico – Caderno DDS – Digital Dentistry in Science

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