Editoriais Orthodontic Science and Practice – Edição 50

Prof. Dr. Alexandre Moro
Diretor Científico

2020: o ano perdido?

Após quase três meses de quarentena, e sem ter a perspectiva de quando isso vai acabar, muitas vezes deixamos a tristeza nos abater, e pode até aparecer aquela sensação de que estamos parados e impossibilitados de avançar, seja em aspectos profissionais ou pessoais.

A nossa geração nunca havia passado por uma fase difícil como essa e, provavelmente, isso vai nos fazer ficar mais fortes.

De repente, aquele tempo extra que nunca tivemos veio em abundância e coube a você aproveitá-lo da melhor forma possível.

O que você fez? O que está fazendo? O que vai fazer?
Provavelmente, você deve ter assistido muitas palestras online. Nunca se teve tantas oportunidades de atualização profissional como agora. Parece que todo mundo virou professor. De lives no Instagram a palestras no Zoom, bastava você escolher. Tivemos muitas coisas boas e muitas ruins!

E agora que os atendimentos nos consultórios estão voltando, você deve estar se ajustando a todos os novos protocolos de Biossegurança. Você vai ser obrigado a fazer algumas coisas que provavelmente já deveriam ter sido feitas antes, mas que você foi postergando. Com certeza, isso vai ser bom para você e para seus pacientes.

Você também já deve ter percebido que aquela recomendação de consultor financeiro de ter de 3 a 6 meses do salário guardado para uma emergência não era conversa fiada. Pois é, você não tinha. Então que sirva de lição, pois nunca saberemos quando poderemos sofrer um acidente ou ter uma doença que nos impeça de trabalhar por um período.

Você também deve ter entendido que não adiante receber o dinheiro a vista pelo pagamento do tratamento com um alinhador, gastá-lo e achar que pagar parcelado posteriormente é uma boa prática financeira. Fazer o dinheiro girar no seu consultório sem ter lucro não resolve nada!!! Depois da terra arrasada, primeiro aprenda a gerenciar seus gastos. Ir no embalo dos marqueteiros das empresas que vendem materiais e/ou aparelhos não vai te ajudar. Portanto, faça o básico: organize seu estoque de materiais; organize seus fluxos de pagamentos, compras, treinamento de secretária, etc.; melhore a comunicação com os pacientes, incluindo agora as reuniões online; e claro, foco no resultado dos tratamentos.

Provavelmente, daqui a algum tempo, quando olharmos para trás e avaliarmos o ano de 2020, pensaremos: mantive minha saúde e da minha família, não consegui lucrar financeiramente, mas aprendi muitas coisas. E essas lições fizeram com que minha caminhada seguinte fosse mais suave.

2020 será lembrado como o ano do aprendizado, seja em aspectos profissionais ou pessoais.

Prof. Dr. Alexandre Moro
Diretor Científico

Prof. Dr. Ricardo Moresca
Editor Científico Adjunto

Ortodontia pós Covid-19

A pandemia do Covid-19 foi um duro golpe para toda a humanidade e quando tudo isto passar — sim, esta crise terá um fim — ainda precisaremos de um certo tempo para que nossas vidas retornem à normalidade ou, como tem sido anunciado, ao novo normal.

Entre tantas incertezas de como será o mundo após o Covid-19, há apenas uma certeza: nossas vidas não serão mais como antes. Resolver a questão humanitária é, definitivamente, a prioridade número um. Além deste enorme desafio, há também profundas implicações para a economia, negócios e empregos. Considerando esta nova realidade, gostaria de usar este espaço para refletir um pouco como será o futuro da nossa especialidade após esta crise mundial.

Primeiramente é preciso entender as mudanças no comportamento do consumidor no Brasil em virtude da substancial retração da economia já sentida. De acordo com pesquisa realizada em abril deste ano, aproximadamente 80% dos brasileiros estão pessimistas ou inseguros com relação à economia, 40% têm medo de perder emprego, 50% apresentaram redução na renda mensal e 70% cortaram gastos com serviços ou produtos não essenciais¹. Estas informações afetam a Ortodontia de diversas maneiras. Na prática, representa uma redução de pacientes interessados em investir em tratamentos não essenciais neste momento. A renegociação de valores também deverá ser uma necessidade para muitos pacientes. Portanto, precisamos estar preparados para uma significativa redução nas receitas.

Também não resta dúvidas de que os meios digitais vão continuar em alta. Na Ortodontia, creio que especialmente as áreas de ensino e informação ao paciente serão amplamente beneficiadas. Como pontos positivos, podemos destacar que as plataformas digitais envolvendo o ensino a distância, vídeo conferências e online streaming vieram para ficar e deverão fazer parte das estratégias de ensino a partir de agora. Também é preciso considerar que as informações de baixa qualidade e sem fundamentação disseminadas em profusão nas redes sociais também ganharam espaço. A análise crítica do ortodontista deverá ser ainda mais aguçada diante de tanta oferta de conteúdo.

Muitos mercados vão ganhar espaço com a presença digital, o que não será exatamente o caso do tratamento ortodôntico, que depende de atendimentos presenciais. Pelo contrário, percebo que o ortodontista deverá investir em atendimentos cada vez mais individualizados, tanto na atenção ao paciente como na biossegurança, diminuindo ao máximo a necessidade de consultas. Afinal, será uma tarefa difícil convencer os pacientes a saírem da segurança de suas casas. Também acredito que a relação de confiança do paciente com seu ortodontista deve aumentar, uma vez que os consumidores estão mais atentos e preocupados sobre a qualidade dos serviços prestados às suas famílias.

Diante desta perspectiva de severo corte de gastos motivada por insegurança financeira, acompanhada da reflexão sobre a real necessidade de consumo, precisaremos nos reinventar como ortodontistas. Penso que a atenção individualizada, considerando suas várias interfaces, incluindo a conexão afetiva proporcionada pelo acolhimento do profissional, deverá ser ainda mais relevante na escolha do ortodontista.

Mudanças profundas na rotina das pessoas estão definindo novos comportamentos. A resiliência certamente será uma das virtudes mais importantes para os profissionais que pretendem se destacar neste novo momento. Será preciso transformar-se rapidamente, agregar valor e ter uma mentalidade além da crise para sobreviver.

Novos tempos, nova mentalidade, novas atitudes!

¹McKinsey & Company M&S COVID 19 Brazil Consumer Pulse Survey 04/23-26/2020.

Prof. Dr. Ricardo Moresca
Editor Científico Adjunto

Editorial – Caderno Digital Dentistry in Science

Prof. Dr. Mauricio Accorsi

Diretor Científico DDS-BR

Otimismo Tecnológico e a Covid-19 – The Day After

“O pessimista vê dificuldade em cada oportunidade; o otimista vê oportunidade em cada dificuldade”. (Winston Churchill)

Em um mundo completamente em transe por conta da pandemia, com incertezas, medos e ansiedade em relação ao que virá pela frente, a Odontologia se vê frente a um desafio ainda maior: reinventar-se em meio a cuidados redobrados para se evitar o contagio dos profissionais, equipe e clientes, em um contexto onde o receio da contaminação durante os atendimentos odontológicos, aliado a falta de recursos financeiros em uma economia em recessão nos próximos anos, irá invariavelmente subtrair muitos pacientes das clínicas odontológicas. Cenário ainda mais temeroso no Brasil, onde já estamos há décadas convivendo com um sucateamento da profissão com abordagens mercantilistas e antiéticas de norte a sul.

Por outro lado, vários futuristas estão dizendo que o coronavírus pode funcionar como um “acelerador de futuros”. Ou seja, a pandemia poderá antecipar mudanças  que já estavam em curso, como o trabalho remoto, a educação a distância, a busca por sustentabilidade e a cobrança, por parte da sociedade, para que as empresas sejam eticamente mais responsáveis do ponto de vista social. E reforçando aquele clichê sobre o significado de “crise” em mandarim: todo “perigo” traz consigo uma “oportunidade”, como bem disse Churchill. Dessa forma, teremos que nos adaptar a nova realidade, ao “novo normal” como estão dizendo, ao mesmo tempo em que deveremos buscar novas oportunidades usando a criatividade e as inúmeras ferramentas tecnológicas que já estamos acostumados a utilizar.

Quem tem acesso a internet, presenciou nas últimas semanas uma verdadeira avalanche de lives, webinars, cursos e até mesmo eventos totalmente digitais, como foi o maior e mais importante congresso da Ortodontia mundial, o encontro anual da Associação Americana de Ortodontia, que era para ter acontecido nos Estados Unidos, no início de maio, ironicamente em Atlanta, cidade sede do CDC – Centers for Disease Control and Prevention, órgão americano conhecido no combate as doenças contagiosas, epidemias e pandemias. Assim também será o 9º Congresso Internacional da Ortodontia da WFO – World Federation of Orthodontists, que estava agendado para acontecer em Yokohama, no Japão, em outubro.

Essa grande quantidade de eventos online nas últimas semanas serviu para preencher o nosso tempo durante o isolamento social, dando-nos a oportunidade de nos aprimorarmos em temas do nosso interesse. Muitas dessas lives, inclusive, faziam parte de um processo de venda de info-produtos como eBooks, cursos de maior duração, consultorias online, etc., por meio de ferramentas de marketing digital, utilizando-se uma conhecida “fórmula de lançamento”, que é uma sequência bem elaborada e estudada de passos (gatilhos mentais) até se chegar ao processo final de venda, algo legítimo e que deverá fazer parte da nossa rotina nos próximos anos. Entretanto, parece ser necessário um certo “freio de arrumação” para se separar o joio do trigo em um cenário com mais caciques do que índios, todos ávidos por um lugar ao sol. A Odontologia tem se destacado nas últimas décadas por ser vulnerável a interesses corporativos e a influência nefasta de “mitos” gerados pelas redes sociais, o que infelizmente retrata uma verdade inconveniente: uma certa falta de senso crítico comum entre os profissionais da Odontologia.

Essa Era de glamourização das redes sociais faz com que “colegas famosinhos” adquiram de forma torta e equivocada um dos gatilhos mentais mais valiosos no marketing digital, que é a “autoridade” em determinado tema ou área. Assim, aproveitando-se dessa “fama”, passam a vender conteúdos questionáveis, muitas vezes sem embasamento científico, algo que, além dos riscos inerentes, gera mais desinformação e incertezas do que conhecimento de qualidade propriamente dito. Portanto, não deixe de aproveitar essas novas oportunidades de aprendizado e troca de experiências online, mas fique atento e pesquise antes de adquirir qualquer curso ou serviço online para se evitar frustrações. Oswaldo Scopin fala com propriedade que devemos tomar cuidado com esse excesso de informação, o que não necessariamente se traduz em “educação e conhecimento”, ao contrário, isso pode gerar ainda mais ansiedade e insegurança. O momento é de se organizar de forma a se obter o melhor de ambos os mundos: o digital e o mundo físico, onde ainda se faz necessária a leitura de artigos, livros, trocas de experiências com os colegas e aplicação clínica desse conhecimento, na certeza de que o “universo digital” só faz sentido quando está totalmente integrado ao mundo real, e isso também vale para os eventos presenciais, como cursos de formação e congressos que certamente voltarão a fazer parte da nossa rotina e serão essenciais, como sempre foram no passado.

Nesse turbilhão de informações que estamos sendo submetidos nesse momento, talvez a maior oportunidade seja passarmos a olhar todo o arsenal de recursos tecnológicos que temos a disposição para ampliar o escopo da nossa atuação. E, da mesma forma que essa educação a distância será vital daqui para frente quando necessitarmos de uma segunda opinião, ou para nos aperfeiçoarmos, a assistência a distância também poderá se tornar realidade no Brasil. Em ambos os casos estamos falando da telesaúde
(teleodontologia), um conceito já conhecido por todos e amplamente utilizado na medicina em várias partes do mundo, e também muito comum na radiologia odontológica e no diagnóstico bucal, por exemplo, e que agora, por conta da pandemia, acabou ficando em grande evidência.

A telesaúde (telemedicina) não é novidade no Brasil. Na Odontologia, o núcleo de teleodontologia da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo, com apoio da Associação Brasileira do Ensino Odontológico – ABENO, lançou em agosto de 2011 a Rede Nacional de Teleodontologia, durante a 46ª Reunião Anual da ABENO, reunindo as iniciativas nacionais e ofertando ao cirurgião-dentista um espaço diferenciado para a discussão de casos, apoio à tomada de decisão e construção de uma coleção voltada à sua área profissional.

Entretanto, teleconsultas (comunicação profissional/paciente via tecnologias de comunicação) não são permitidas pelo Conselho Federal de Odontologia– CFO, baseado no Código Civil Brasileiro. Hoje, o que é permitido é a teleconsultoria, que consiste na comunicação profissional/profissional. Dessa forma, o que se faz necessário nesse momento é uma regulamentação dessa nova modalidade prática e o Conselho Regional de Odontologia do Paraná saiu na frente por iniciativa do seu presidente, Dr. Aguinaldo Coelho de Farias, que em 20 de abril de 2020, instaurou o I Fórum Permanente da Teleodontologia, com o objetivo de discutir o que pode ser feito nessa área tanto na iniciativa privada quanto no setor público. Assim, após a delimitação deste projeto, espera-se uma avaliação criteriosa das condições de se propor ou não, a regulamentação da teleodontologia no Brasil pelo CFO.

Nós acreditamos que existe sim espaço para a teleassistência, como as teleconsultas e o telemonitoramento em várias áreas da Odontologia, e isso de forma alguma significa a tentativa de se realizar “procedimentos a distância”, como uma restauração, ou tratamento endodôntico, utilizando recursos como robótica, realidade virtual e inteligência artificial. Não, não se trata disso, pelo menos não por enquanto… O que nós estamos falando é da utilização de várias das tecnologias que já estão ao nosso alcance, de forma otimizada para ampliar o escopo de atuação da Odontologia, amplificando o nosso alcance com eficácia, eficiência, segurança e maior retorno financeiro, isso tudo de forma ética, responsável e embasada, por isso a necessidade da discussão e regulamentação por parte do CFO, algo que inclusive terá repercussões sociais, onde existe dificuldade de acesso ao atendimento, como em áreas rurais, por exemplo.

Para Michael Dell, nas últimas décadas o avanço da tecnologia trouxe mudanças disruptivas em todos os setores da economia e na sociedade como um todo, a esperança é que os próximos 30 anos sejam ainda mais revolucionários. Para ele, na área da saúde, por exemplo, através do uso da inteligência artificial, a esperança são avanços como o fim da surdez, ou da cegueira e, eventualmente, a cura do câncer também. Dessa forma, a Odontologia não pode ficar de fora dessa revolução e precisamos estar preparados para as mudanças que seguramente virão. Entender que mundo novo é esse é importante para nos prepararmos para o que vem por aí. Porque uma coisa é certa: o mundo não será como antes.

Dr. Mauricio Accorsi
Diretor Científico – Caderno DDS – Digital Dentistry in Science

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