Editoriais Orthodontic Science and Practice – Edição 51

Prof. Dr. Alexandre Moro
Diretor Científico

Política, Religião, Futebol e …. Ortodontia

“Nada se aprende com a polarização de opiniões; isso é o mesmo que o preto e branco no tabuleiro de Xadrez: Nada significa sem as peças”. (Álvaro Silva)

Desde pequeno aprendemos que alguns assuntos são proibidos em determinados locais ou situações, pois causam muita controvérsia e discórdia. Mesmo sabendo disso, muitas vezes insistimos em trazer esses temas em nossas conversas. Isso quer dizer que, como seres sociais, somos ávidos por dar nossos palpites, externar nossas ideias e nossas convicções, passar adiante nossa percepção com relação a temas que permeiam nosso dia a dia.

Infelizmente, muitas pessoas têm a impressão de que quando alguém discorda de seu ponto de vista, ela própria estaria sendo rejeitada. Assim, dificilmente as pessoas se dão conta de que não se trata de algo pessoal, mas tem relação com a pluralidade de ideias, ou seja, é saudável termos pontos de vista diferentes em algumas situações, sem que isso signifique gostar mais ou menos de alguém.

Nos últimos tempos temos visto isso acontecer na Ortodontia, e, mais especificamente, com relação aos alinhadores removíveis. Há atualmente um clima tenso nas redes sociais, o famoso “Fla-Flu” que estamos vendo em tudo hoje em dia, especialmente na política. De um lado, estão os defensores fervorosos, devotos a todo custo, que acham que já é possível substituir os aparelhos convencionais por alinhadores, em todos os casos e ainda com muitas vantagens.

De outro lado, temos os críticos ferrenhos, que acham que os alinhadores não funcionam de maneira alguma, e que em alguns casos podem até causar iatrogenias. O problema disso tudo é que em ambos os lados temos visto opiniões pessoais sem embasamento científico, muitas vezes ligadas a aspectos financeiros, ou seja, cada um “defendendo o seu peixe”. Nos dois lados temos pessoas, muitas vezes ligadas a empresas, que além de defender o seu trabalho, buscam através de polêmicas nas redes sociais ganhar “likes” e futuros alunos para seus cursos. Ou seja, um certo “negacionismo” científico com viés financeiro, o que é lamentável, infelizmente.

Como profissionais pós-graduados, formadores de opinião no país, deveríamos nos basear na ciência para emitir a nossa opinião. E o que a ciência tem dito sobre os alinhadores recentemente?

Haouili et al.¹ realizaram um estudo prospectivo com 38 pacientes com idade média de 36 anos. Eles trataram 29 pacientes com Invisalign Full e 9 com Invisalign Teen. O número médio de alinhadores para cada arco foi de 21 para o superior e 20 para o inferior. O tempo médio entre o escaneamento inicial e final foi de 8,5 meses. Eles encontraram que a precisão média do Invisalign para todos os movimentos dentários foi de 50%. O movimento mais preciso foi a inclinação vestíbulo-lingual da coroa dos incisivos superiores (56%) e o menos preciso foi a rotação mesial dos primeiros molares inferiores (28%). Quando analisaram as pontuações do Board Americano de Ortodontia, observaram que 74% dos casos seriam aprovados. A duração média do tratamento foi de 8,5 meses. Esses resultados são bons e clinicamente relevantes, entretanto, os casos foram tratados por um ortodontista experiente. Fica a dúvida se um neófito conseguiria os mesmos resultados. De qualquer forma, este estudo mostra o que muitos profissionais já estão vendo na clínica, que apesar de não serem perfeitos os alinhadores cada vez mais têm alcançados melhores resultados.

Ressalto também que debater ideias não significa julgar pessoas e opiniões. A discussão sobre futebol tende a estimular brincadeiras saudáveis. A discussão sobre política mostra que hoje em dia as pessoas estão mais antenadas e participativas. Discutir religiões significa discutir sobre como cada um exerce sua fé.

E o que significa discutir a Ortodontia?

A discussão sobre Ortodontia deveria estar centrada na ciência e não somente nas opiniões pessoais, pois devemos sempre buscar o melhor para o nosso paciente, em primeiro lugar. Entretanto, se houver respeito e consideração por pontos de vista diferentes e a compreensão de que discordar de uma opinião faz parte de um debate maior, e não se trata de agressão pessoal, muitas amizades podem ser preservadas e muito se pode aprender com os colegas de profissão.

¹- Haouili N, Kravitz ND, Vaid NR, Ferguson DJ, Makkia L. Has Invisalign improved? A prospective follow-up study on the efficacy of tooth movement with Invisalign. Am J Orthod Dentofacial Orthop Am J Orthod Dentofacial Orthop 2020;158:420-5.

Prof. Dr. Alexandre Moro
Diretor Científico

Prof. Dr. Filiphe Canuto
Ortomentor 

VIVA A PLURALIDADE DO PROFESSOR BRASILEIRO!

A Ortodontia brasileira está repleta de competentes e honestas influências. Presenciais e, cada dia mais, virtuais.

Temos a felicidade de contar com milhares de Professores e Clínicos em quem podemos nos espelhar, como os autores/professores que estão homenageados na capa desta Edição. Criar metas e objetivos é essencial ao ser humano e o professor é, inegavelmente, um “espelho” para seus alunos.

O verdadeiro professor é um transmissor de REALIDADES. Todos nós conhecemos o ditado que diz que “o mundo é dos espertos”. Quem tem por hábito proferir essas palavras, crê eventualmente que a trapaça é uma tática importante para conquistar um lugar de destaque, o que não é verdade. Nada que é feito de forma desonesta e sem ética tem a possibilidade de dar certo. Quem age nesse “modus operandi” pode até conseguir alcançar resultados “positivos” por certo período, mas não serão duradouros, consequentemente, no final das contas, não vale a pena escolher este caminho.

Essencialmente, ser professor significa, muitas vezes, renunciar a oportunidades de obter mais dinheiro, status ou outros benefícios. Mas e daí? O verdadeiro Professor se completa com algo muito mais gratificante: ele se dá conta que é um engenheiro de almas, vidas e esperanças pessoais e profissionais. Tem orgulho de ver os seus alunos se desenvolverem e se tornarem críticos. Em suma, reconhece e se completa com a essência da transmissão do conhecimento.

Tenho a convicção que essa essência move cada autor homenageado na capa desta edição e tantos outros colegas que são instrumentos de difusão do bom conhecimento.

Enfim, Parabéns à Editora Plena pela ideia da capa desta linda edição que remete a pluralidade! Parabéns a vocês, os milhares de verdadeiros Professores!

Um forte abraço,

Prof. Dr. Filiphe Canuto – Ortomentor
Instagram: @prof.filiphecanuto

Editorial – Caderno Digital Dentistry in Science

Prof. Dr. Mauricio Accorsi

Diretor Científico DDS-BR

Dumb® Doctors e o Dilema da Ortodontia:

“To be or not to be, that is the question”

“Nada majestoso entra na vida dos mortais sem uma maldição” Sófocles

Um levantamento realizado pelo Laboratório do Futuro¹, da UFRJ, demonstrou recentemente que o desenvolvimento tecnológico das duas próximas décadas pode deixar sem emprego mais de 27 milhões de trabalhadores em todos os 5570 municípios brasileiros. As regiões Sul e Sudeste, as mais ricas do país, serão também as mais afetadas, com cerca de 70% das posições de trabalho impactadas pela automação e por sistemas de inteligência artificial. Esse cenário não afeta somente as profissões de nível básico e técnico como cobradores e operadores de telemarketing, mas mesmo profissões de nível superior podem ter sua “configuração” totalmente reformulada nos próximos anos, algumas ganhando status e importância, enquanto outras irão perder valor e relevância na sociedade.

O futuro da Odontologia ainda não está selado e depende muito mais da percepção do papel das novas tecnologias do que da insistente abordagem predatória do mercado. Entretanto, especialidades como a Ortodontia estão sim ameaçadas por uma combinação de fatores que poderão criar uma “tempestade perfeita” nos próximos anos. Dessa forma, precisamos entender que as tecnologias não necessariamente significam inovações; elas servem apenas como veículos que permitem o desenvolvimento de processos inovativos com potencial disruptivo, dependendo da forma com que são utilizadas.

Nesse contexto de incerteza, os ortodontistas precisam URGENTEMENTE assumir o protagonismo da especialidade e, para isso, é fundamental entender que o valor do que fazemos não está no tipo de recurso terapêutico que utilizamos, mas em nós mesmos, em nossa formação acadêmica, em nosso compromisso com a verdade e honestidade e, principalmente, em um genuíno respeito à dignidade dos nossos clientes e colegas de profissão. Em outras palavras, o valor do que fazemos está essencialmente em nossos
resultados, que podem transformar a vida dos nossos clientes para melhor, ou para pior.

Esse conjunto de valores e princípios, que podemos chamar de ÉTICA, representa o mapa que deve nos guiar em sociedade. Pensar de forma coletiva, no melhor interesse de todos, sem olhar apenas para os próprios umbigos, é o único caminho a seguir para que a profissão prospere nas próximas décadas. É imperioso entender que a ciência e o trabalho comprometido é que possuem valor, não o dispositivo terapêutico utilizado, seja ele qual for, pois, ao nos definirmos pela “grife” do aparelho que usamos, estamos pavimentando a estrada para a nossa própria obsolescência.

Em geral, não se pode cozinhar sem uma “panela”, da mesma forma que é impossível fazer uma fotografia sem uma “câmera”. Entretanto, se o prato fica saboroso ou não, é muito mais responsabilidade do cozinheiro do que da panela. Da mesma forma que o que faz nascer uma obra-prima é sempre o olhar do fotógrafo, ainda que tenhamos hoje em dia, câmeras profissionais na palma da mão, em nossos smartphones. E isso não quer dizer que a “panela” ou a “câmera” não tenham importância, ao contrário, podem
sim fazer muita diferença, mas são totalmente dependentes do operador para que um “milagre” aconteça. É esse conceito que precisamos passar aos nossos clientes, de que somos nós que estamos no controle, de que a tecnologia está aqui para nos servir e não o contrário. Somos nós que assumimos a responsabilidade pelas decisões terapêuticas e, desta forma, recebemos todos os créditos pelos sucessos, e vivenciamos os martírios pelos fracassos. Então, não podemos mais ser meros expectadores, terceirizando todas as nossas responsabilidades para a indústria.

No momento em que as pessoas entenderem o real valor do que fazemos, estaremos livres para utilizar a tecnologia mais avançada do mundo, sem correr o menor risco de perdermos o nosso posto de trabalho, a nossa renda e o nosso reconhecimento como profissionais de nível superior. Mas para quem quer ser livre para raciocinar e se expressar, não existem atalhos. Somente a coragem permanente de falar a verdade e a vigilância constante para superar os desafios é que irá nos permitir prevalecer, pois como disse George Washington, quando tentam nos calar, é porque estão querendo nos levar mudos e ignorantes, como ovelhas, para o abate. Não passarão.

¹ http://labfuturo.cos.ufrj.br/

Dr. Mauricio Accorsi
Diretor Científico – Caderno DDS – Digital Dentistry in Science

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