Orthoscience: Editorial

Editoriais Orthodontic Science and Practice - Edição 41

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

De quem é o interesse?

Li, recentemente, um artigo sobre Ética em Ortodontia do Dr. Peter Greco na revista AJO-DO1, que me chamou muito a atenção, e me fez refletir sobre certos aspectos que vivemos na Ortodontia atualmente.
 
Após relatar a situação de uma paciente em particular, ele faz a seguinte colocação: quando um relacionamento profissional-paciente é estabelecido, o ortodontista assume a responsabilidade de fidelidade. Para o Dr. Greco existem dois pontos importantes na fidelidade em cuidados de saúde. O primeiro é que o profissional deve manter os interesses do paciente acima de seus próprios interesses. O segundo é que o profissional deve priorizar os interesses do paciente sobre os interesses de terceiros.
 
Sim, esses são princípios mais profundos que podem surpreender em um primeiro momento e, portanto, merecem ser analisados. Depois de uma reflexão mais detalhada, fica claro que o Dr. Greco tem razão, ou seja, considerando a aplicação da ética na área da saúde e, também o fato de o paciente contratar nossos serviços com uma contrapartida financeira, parece fazer todo o sentido que o interesse do paciente deva estar acima dos interesses dos demais personagens envolvidos nessa cena.
 
Mas em que situações devemos considerar o paciente em primeiro lugar? Na verdade, em todas as etapas do relacionamento, começando pelas decisões de tratamento, seleção dos métodos de correção que serão utilizados, resultados esperados e, porque não, na solução de eventuais problemas que surjam durante a vigência dessa relação de fidelidade. Claro que a opção final sempre cabe aos pacientes, mas sabemos também que exercemos uma forte influência em suas decisões.
 
Segundo o Dr. Greco, quando o interesse pessoal do profissional supera o interesse do paciente, aparecem os conflitos. É justamente nesse ponto que gostaria de chegar.
 
Atualmente, há muitos fatores que influenciam nossas tomadas de decisão no tratamento ortodôntico. Fatores esses que variam desde o conhecimento e experiência que cada um acumula durante sua prática clínica, preferências pessoais, domínio dos diferentes métodos de tratamento e, por que não assumirmos, a influência dos fabricantes e das empresas através de poderosas ferramentas de marketing, direcionadas tanto aos ortodontistas, como diretamente aos pacientes.
 
Para o Prof. Gerson Köhler, ortodontista e advogado, “fazer sempre o melhor para o paciente, sim, mas nunca se sujeitar aos conceitos, muitas vezes errôneos, que os pacientes costumam trazer sobre os tratamentos que disponibilizamos em nossa área de especialização. Hoje em dia, muitas vezes os pacientes trazem consigo ideias inadequadas, em sua conceituação leiga sobre o que procuram, em relação aos inúmeros tipos de aparelhos, devido à massiva e incomodativa mídia das empresas, que visam tão somente o lucro. Quando insistem em aparelhos do tipo x, y ou z, devemos mostrar que o que nós apresentamos não é a’venda de aparelhos’ e sim resultados terapêuticos e que os critérios sobre quais aparelhos utilizar são sempre do especialista e não do paciente. Nossos custos não estão vinculados aos tipos de aparelhos. São cobrados pelos resultados buscados e que devem ser atingidos, muitas vezes dentro de limitações e até possíveis efeitos colaterais, que devem ficar muito bem claros e explicados, desde a consulta inicial, em todas as etapas da avaliação clínica em curso e, principalmente, constar no TCLE.”
 
Diante dessas colocações, é preciso resgatar o princípio de que todas as nossas decisões de tratamento devem favorecer ao máximo nossos pacientes, seja pelos resultados esperados, pela redução dos riscos ou pela seleção de abordagens mais eficientes, considerando inclusive o investimento financeiro do paciente. Não podemos embasar as propostas de tratamento apenas em nossa comodidade ou no que possa nos favorecer, de uma maneira ou de outra, nem favorecer o interesse das empresas relacionadas, o que parece ser uma tarefa bem difícil atualmente.
 
Essa sabedoria para decidir a favor de nossos pacientes vem do conhecimento, da vivência clínica e, principalmente, da ética nas relações com nossos pacientes.
 
Boa leitura!
 
1. Greco PM. A friend in need. Am J Orthod Dentofacial Orthop. 2018; 153:174.
 
Dr. Ricardo Moresca 
Diretor Científico
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Qual é a métrica do seu consultório?
Será que é importante coletar e analisar as estatísticas do seu consultório?
 
A coleta de dados para análise é a melhor forma de construir uma base para decidir estratégias de ação. Os ortodontistas que sabem suas métricas são mais rápidos para identificar que alterações precisam ser feitas. Identificam onde elas estão tendo sucesso ou estão falhando, para onde direcionar seu marketing para aumentar o número de pacientes que iniciam o tratamento, qual plataforma de mídia social produz mais consultas iniciais, se vale a pena abrir outro consultório ou trabalhar em outro local. Consegue-se saber se o número de pacientes que está iniciando está diminuindo, sem saber o número total de exames ou então qual a taxa de conversação nos exames em pacientes em tratamento?
 
Nos meses de outubro, novembro e dezembro, a revista americana Journal of Clinical Orthodontics (JCO) publicou seu estudo de consultórios de 2017, que é uma pesquisa bianual que ela realiza desde 1981. Um questionário foi enviado para 6.825 ortodontistas nos EUA e 318 completaram o questionário. Esse estudo é interessante, pois cada profissional pode comparar seus dados com o do estudo e identificar áreas que precisam de melhoria, permitindo também que ele se autoavalie e saiba onde está e para onde a maioria está indo. Infelizmente, no Brasil não há um estudo como esse.
 
Alguns dados desse estudo chamam a atenção, ele mostrou que houve um aumento na arrecadação das clínicas após o período de recessão de 2009 a 2011. A média de arrecadação no estudo de 2017 foi de $ 1.218.000,00. Isso mesmo, uma clínica de Ortodontia nos EUA faturou em média mais de 1 milhão de dólares. A média das despesas ficou em $ 650.994,00 e o lucro foi de $ 547.712,00. A média de casos iniciais foi de 277, sendo 21% de adultos. A média de casos em tratamento ativo foi de 535 e de novas consultas foi 400. O valor médio para o tratamento de uma criança (dentição permanente) foi de $ 5.620,00, e para o adulto foi de $ 6.100,00. A média do valor de pagamento inicial foi de 20% e o período médio de pagamento foi de 22 meses. O número médio de horas trabalhadas por semana foi de 36, e o número de pacientes vistos por dia foi de 43.
 
A coleta de dados deveria ser uma rotina em qualquer consultório, mesmo no Brasil. Por exemplo, se você mudou para um sistema de bráquetes autoligado, que custa bem mais caro que um bráquete convencional, você saberia dizer o quanto isso lhe trouxe de lucro a mais no seu consultório? Isso agregou na entrada de mais pacientes? Esse raciocínio poderia se estender para várias outras áreas do nosso consultório. Poderia ajudar a decidir, por exemplo, se valeria a pena comprar um scanner intrabucal, uma impressora 3D, etc...
 
A minha pergunta final é: para qual nível você quer levar seu consultório?
 
Prof. Dr. Alexandre Moro
Editor Científico Adjunto

 

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