Orthoscience: Editorial

Editoriais Orthodontic Science and Practice - Edição 46

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Para onde caminha a Ortodontia em 2019?
 
Nos últimos oito anos fiz essa mesma pergunta nesta coluna e respondi baseado na programação científica dos congressos da Associação Americana de Ortodontia que aconteceram em Chicago, Honolulu, Filadélfia, New Orleans, San Francisco, Orlando, San Diego e Washington.
Vamos repeti-la agora com a programação do congresso de 2019 que aconteceu em maio, em Los Angeles.
Após avaliar os 4 dias de programação, dividi as apresentações em 33 assuntos diferentes. Os que mais foram abordados e o número de apresentações foram: Administração do consultório, com 36; Marketing, com 17; Tecnologia CAD/CAM, com 13; Trauma dental e problemas de irrupção, com 12; Alinhadores removíveis, com 9 apresentações.
Poucas palestras aconteceram sobre Genética, Distração osteogênica, DTM, Fissurados e Mordida Aberta e nenhuma sobre bráquetes Autoligáveis, Reabsorção radicular e Recidiva.
Um novo tema que chamou a atenção foi “Impressoras 3D e confecção de alinhadores no próprio consultório (In-house)”.
O número de palestrantes brasileiros se manteve em 8 neste ano. Nossos representantes foram: Jorge Faber, Lucia Cevidanes, Eustáquio Araujo, José Nelson Mucha, Flavia Artese, Carlos Alexandre Câmara, Marilia Yatabe Ioshida e Ildeu Andrade.
Chamou a atenção o grande número de empresas comercializando alinhadores removíveis, impressoras 3D e programas para soluções digitais em Ortodontia. Esse ano foi a vez da Ormco lançar seu sistema de alinhadores, o Spark Clear Aligners. Também foi notório o menor tamanho dos stands no evento. Parece que economia foi a palavra de ordem nas empresas. Também foi diferente o fato de alguns palestrantes darem duas palestras com temas diferentes no mesmo evento. Uma provável explicação seria a tentativa de diminuir os custos do congresso.
E quais são as conclusões após essa avaliação do evento?
O ortodontista americano está cada vez mais preocupado com a administração do consultório e com o marketing. A parte tecnológica associada à Ortodontia está crescendo a passos largos juntamente com a utilização dos alinhadores removíveis. A parte básica da Ortodontia sempre vai ter seu espaço e assuntos como Biomecânica, Estética Facial, Finalização, Tratamento das Classes II e III sempre serão muito importantes. Como já temos visto há alguns anos, os bráquetes autoligáveis não mais despertam discussão, da mesma forma como o ortodontista não dá muita importância para a recidiva pós-tratamento.
Estamos vivendo uma fase de transição onde os alinhadores removíveis estão ocupando um grande espaço em nosso arsenal terapêutico. Até onde eles vão chegar ainda é uma incógnita. Só o tempo nos dirá.
 
Prof. Dr. Alexandre Moro
Diretor Científico
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
As mulheres na Ortodontia
 
Assim como em todas as áreas da sociedade, as mulheres têm ganho cada vez mais espaço e importância na Ortodontia. Aliás, não poderia ser diferente. Esse reconhecimento serve para corrigir distorções históricas da ultrapassada ideia de superioridade do gênero masculino.
Segundo o último censo do IBGE, 51,09% da população são mulheres. Além disso, são também maioria no ingresso em universidade. Os dados da última edição (2016) do Censo da Educação Superior revelam que as mulheres representam 57,2% dos estudantes matriculados em cursos de graduação.
Na Odontologia, de acordo com dados do CFO, dos cerca de 300.000 cirurgiões dentistas inscritos em 2018, aproximadamente 180.000 (60,1%) são mulheres e 120.000 (39,9%) são homens. Não encontrei dados oficiais para a Ortodontia, mas, seguindo a direção destes números e observando as salas de aulas de pós-graduação e os auditórios dos congressos não é difícil concluir que, atualmente, existe um predomínio das mulheres na Ortodontia. Baseando-se nestes dados também é bem provável que mais mulheres do que homens lerão este editorial!
De acordo com a Organização dos Estados Ibero-americanos (OEI), o Brasil é o país ibero-americano com a maior porcentagem de artigos científicos assinados por mulheres seja como autora principal ou como coautora. Entre 2014 e 2017, o Brasil publicou cerca de 53,3 mil artigos, dos quais 72% são assinados por pesquisadoras mulheres. A pesquisa analisou os artigos publicados no Web of Science que é um banco de dados que reúne mais de 20 mil periódicos internacionais. No entanto, apesar de assinar a maior parte dos artigos, o número de mulheres pesquisadoras que publicaram no período analisado é menor que o dos homens. Entre as áreas analisadas a Medicina é a que conta com a maior parte das autoras mulheres (56%).1
As mulheres também são maioria entre os bolsistas da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), representando 60% do total de beneficiários na pós-graduação e nos programas de formação de professores.2
Apesar destes números favoráveis às mulheres, há muito ainda para avançarmos em relação à igualdade entre os gêneros na Ortodontia brasileira. Basta olharmos agora para a programação dos grandes eventos científicos para constatarmos que os homens ainda são maioria entre os conferencistas. Esta observação da nossa realidade aponta na mesma direção do último Censo da Educação Superior no Brasil que revelou que 55,5% dos docentes da educação superior em exercício são homens. Talvez este seja o próximo desafio a ser vencido, que o reconhecimento à capacidade das mulheres seja cada vez maior nos cargos administrativos e nas posições de destaque científico.
Não restam dúvidas de que as mulheres continuarão a conquistar cada vez mais espaço em todas as áreas, inclusive na Ortodontia.
A Editora Plena está sempre atenta às rápidas transformações da nossa realidade e a este crescente movimento de valorização da mulher. Para 2020, estamos programando um evento para todos, mas, apenas com elas no palco. Será uma justa homenagem a quem, com graça, competência e muita determinação, contribui, a cada dia, para uma Ortodontia melhor!
 
1 Tokarnia M [Internet]. Mulheres assinam 72% dos artigos científicos publicados pelo Brasil. Agência Brasil. Disponível em: http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2019-03/mulheres-assinam-72-dos-artigos-cientificos-publicados-pelo-brasil
2 Fundação CAPES [Internet]. Mulheres representam 60% dos bolsistas da CAPES. CAPES. Disponível em: http://www.capes.gov.br/pt/sala-de-imprensa/noticias/9375-mulheres-representam-60-dos-bolsistas-da-capes
 
Prof. Dr. Ricardo Moresca
Editor Científico Adjunto
 
 
Editorial - Caderno Digital Dentistry in Science
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Eficácia profissional com eficiência tecnológica, o futuro da Ortodontia!!!
 
“A inteligência artificial não irá acabar com a Ortodontia, mas os ortodontistas que não souberem utilizar a inteligência artificial em seus consultórios, certamente irão perder espaço para outros ortodontistas que souberem”.
(Jack Shaw, AAO – 2019)
 
Para muitos, os conceitos de eficiência e eficácia são sinônimos e em alguns casos isso pode ser verdade. Porém, na Ortodontia nós poderíamos definir eficácia como sendo o conjunto de ações que levam a cabo os processos de diagnóstico e decisão terapêutica acertados e no melhor interesse dos nossos clientes, em outras palavras, eficácia poderia ser definida como: “fazer-se a coisa certa” para cada caso em particular. Já eficiência, ou “fazer certo a coisa”, tem relação com o processo terapêutico em si, ou seja, todas os procedimentos e abordagens quem visam um tratamento seguro e confortável, otimizando-se o emprego da aparatologia de forma a se produzir o melhor resultado, no menor tempo e com o menor custo biológico possíveis, e que de fato venha de encontro as demandas dos clientes. O ideal da profissão é que nós sejamos capazes de sempre realizar tratamentos eficazes e eficientes, e isso pode estar próximo de se tornar realidade. Entretanto, estamos passando por um momento turbulento na Ortodontia mundial, como pudemos comprovar durante o encontro anual da Associação Americana de Ortodontia, que aconteceu recentemente em Los Angeles na Califórnia. Presenciamos um verdadeiro burburinho nos corredores e também em várias apresentações acerca da presença cada vez maior dos chamados sistemas D2C1 nos EUA. Estima-se que, além do conhecidos SmileDirectClub® e Candid®, outras 18 marcas já estariam operando nos EUA, Canada, Inglaterra e Austrália e versões desse modelo de negócio já estariam aterrissando no Brasil. Muito se falou sobre esse tema e também sobre as disputas judiciais entre esses “players” e a gigante Align Technology®, que recentemente foi forçada a fechar as suas 12 lojas localizadas em grandes cidades americanas, fazendo suas ações perderem valor de mercado na NYSE2. Ao que parece, tem “gente” querendo tomar o “território” dos ortodontistas, e de fato muitos colegas sentem-se ameaçados por essa concorrência, que de certa forma é representada pelos grandes avanços tecnológicos que temos presenciado nas últimas décadas. Em nossa opinião, não faz sentido rebelar-se contra essas inovações. Ao que parece esses sistemas vieram mesmo pra ficar e irão progredir ainda mais, seguindo as tendências mundiais ditadas pela exponencial velocidade com que os chips de computador e softwares evoluem. Entretanto, nossa formação extensa, complexa e multidisciplinar, transcende em muito a alçada de resolutividade desses sistemas, que aliás já começam a enfrentar demandas judiciais e inúmeras queixas de clientes insatisfeitos em redes sociais. Então, até que a cibernética e a inteligência artificial evoluam de forma a criarmos um “ortodontista robótico”, capaz de interagir com os clientes, estabelecendo uma relação de confiança, ouvindo de forma comprometida as suas queixas, a fim de realizar um diagnóstico correto e tomar as decisões terapêuticas acertadas, ainda teremos nosso mercado de trabalho garantido. Os tais óculos de leitura, vendidos em bancas de revistas não acabaram com a oftalmologia, nem os tais dispositivos de remoção de manchas tegumentares vendidos pela internet, irão determinar o fim da dermatologia. Da mesma forma, os tais alinhadores D2C não irão decretar o fim da Ortodontia, pois ainda que a tecnologia nos permita grandes avanços nos tornando cada dia mais eficientes, a eficácia ainda é uma prerrogativa do profissional, e é para isso que precisamos olhar com muita atenção nesse momento, pois é essa eficácia profissional, que pode ser traduzida por uma formação acadêmica extensa e continuada, experiência clínica, comprometimento, ética e responsabilidade, é que irá justificar os nossos honorários. Dessa forma, temos que ter muita cautela ao supervalorizar a nossa “ferramenta de trabalho”, colocando todo o valor do que fazemos em um “plástico mágico”, ou em um “super bráquete” pois, ao fazermos isso, nos tornamos presas fáceis do abuso de poder econômico cometido por grandes corporações, abrindo mão do que temos de mais valioso na profissão que é o livre arbítrio, ou seja, a liberdade de convicção para escolher o que é melhor para os nossos clientes. Já passou da hora de sermos mais inteligentes, valorizando as nossas verdadeiras capacidades profissionais e não deixando todo o valor para os nossos aparelhos, ou sistemas, pois eles nada mais são dos que as nossas ferramentas de trabalho, como é um bisturi para um médico, ou uma caneta para um advogado. Em outras palavras, quem deve assumir esse novo e fantástico universo digital na Odontologia somos nós e não o “mercado”, que é exatamente o que está acontecendo.
 
Como bem disse, François de La Rochefoucauld, “o melhor meio para ser enganado é considerar-se mais esperto que os outros”. Quando nos consideramos melhores que os colegas por estarmos no topo dos “programas de milhagens” dos fabricantes, estamos apenas pavimentando nossa estrada para uma aposentadoria precoce e auxiliando as ações desses fabricantes, a atingirem níveis estratosféricos em bolsas de valores, até que nós, ortodontistas, não sejamos mais necessários. Os ortodontistas, em sua grande maioria, são profissionais bem formados e cultos e entendem a importância das mudanças que acontecem em qualquer segmento da atividade humana e sabem muito bem o quanto é necessário se adaptar, sempre em busca de um ideal de excelência. Para esse profissional é que nós estamos trabalhando aqui no DDS-BR, oferecendo um espaço para que as novas tecnologias e novos conceitos possam ser compartilhados e incorporados em nosso dia-a-dia. Nesta edição nós temos dois belíssimos artigos, um sobre os principais pontos da viabilidade da técnica lingual por meio de sistemas CAD/CAM na atualidade, sob autoria do colega Henrique Bacci, e outro sobre colagem indireta de bráquetes assistida digitalmente, demonstrada com um caso clínico dos doutores Fábio Guedes e Renato Martins. A revolução digital está apenas começando e o DDS-BR estará sempre atento para trazer as novidades em primeira mão!!
 
1 Direct to Consumer – uma modalidade de comercio em que os fabricantes (as indústrias) comercializam seus produtos diretamente para o usuário, sem a necessidade de utilizar as revendas e distribuidores (ortodontistas) para isso.
2 A New York Stock Exchange (em português: Bolsa de Valores de Nova Iorque ), cuja abreviação oficial é NYSE, é a bolsa de valores de Nova Iorque e está localizada em Manhattan, na Wall Street.
 
Prof. Dr. Mauricio Accorsi
Diretor Científico DDS-BR

 

EDITORA PLENA