Orthoscience: Editorial

Editoriais Orthodontic Science and Practice - Edição 43

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Ortodontia pós-moderna
 
Vivemos atualmente em uma sociedade chamada de pós-moderna que, entre outras características, é marcada pelo individualismo, explosão do consumo, pluralidade cultural, polarização social e banalização ou ausência de valores.
 
Três outras características adicionais deste mundo pós-moderno estão muito presentes no dia a dia do ortodontista: o domínio das mídias sociais, o imediatismo e o relativismo.
 
Não resta dúvida sobre a poderosa influência que as mídias sociais exercem na formação da opinião e no padrão de consumo de nossos pacientes. No entanto, o mais desalentador é que muitos ortodontistas têm se baseado apenas nestes meios para sua atualização profissional, embasando suas decisões clínica ou “filosofias de trabalho” no que é recomendado por digital influencers.
 
O imediatismo típico da sociedade contemporânea, ou seja, a valorização do “aqui e agora”, desafia as mais diversas áreas do conhecimento para produzirem resultados cada vez melhores em menos tempo. Esta realidade não é diferente na Ortodontia. A busca por resultados mais rápidos é um anseio cada vez mais frequentes entre nossos pacientes.
 
No relativismo nada mais é inquestionável. Os conceitos antes tidos como verdadeiros ou absolutos passam a ser interpretados apenas como uma das possibilidades. Parece não existir mais o princípio do certo e do errado, mas, apenas a relativização do ponto de vista conforme o interesse pessoal. O relativismo também desfia alguns conceitos da Ortodontia, antes tidos como dogmas. Pressionados pelas mídias sociais, pelo imediatismo dos pacientes, pelo mercado altamente competitivo e, principalmente, pelo poder da publicidade, estamos, muitas vezes, abrindo mão de importantes conceitos oclusais e funcionais do tratamento ortodôntico.
 
O que parece importar agora é apenas alinhar os dentes (especialmente os anteriores), agradando o cliente com tratamentos estéticos e reduzidos (e incompletos na maioria das vezes) e postar nas redes sociais para impressionar outros potenciais clientes. Relativizar os objetivos do tratamento de acordo com o interesse do paciente, com a limitação do profissional ou conforme a técnica utilizada parecer ser a nova regra. Aliás, a nova possibilidade. Por um momento esqueci que não há mais regras no mundo pós-moderno!
 
Um exemplo típico desta flexibilização na Ortodontia são os alinhadores. Quando olhamos para as mídias sociais vemos uma explosão de propagandas bombardeando pacientes e ortodontistas com mensagens sobre os grandes benefícios do tratamento com os alinhadores. Por outro lado, quando avaliamos os casos tratados e abrimos as revistas científicas somos confrontados com evidências que indicam que os resultados clínicos obtidos com estes dispositivos ainda estão distantes do prometido e, principalmente, do que é possível de se obter com os métodos tradicionais.
 
Então, resta a pergunta: Para onde caminha a Ortodontia? A resposta que me vem à cabeça em um primeiro momento é que a pressão das mídias digitais, dos pacientes e do marketing têm relativizado os objetivos e os resultados do tratamento ortodôntico. Outra possibilidade seria que todo o conhecimento que acumulamos ao longo de séculos de pesquisas tenha sido deletado de uma hora para outra. Não creio que isto tenha acontecido.
 
Não, esta não é uma crítica aos alinhadores ou outras formas de tratamentos similares. É apenas uma reflexão para reavaliarmos e repensarmos sobre os rumos de nossa especialidade, que cada um de nós ajuda a construir.
 
Boa reflexão e boa leitura!

Dr. Ricardo Moresca 

Diretor Científico
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Aparelhos estéticos: novos tempos
 
A Ortodontia tem passado por grandes transformações nos últimos anos e não poderia ser diferente. É só pararmos para ver como vivemos hoje e compararmos com 15 anos atrás. Google, Netflix, Instagram, WhatsApp, etc. A vida está diferente e a profissão também. Os jovens não possuem essa percepção, mas nós, mais “experientes” (e não velhos) sabemos bem disso.
 
A população, atualmente, possui uma grande preocupação com a estética, não só em relação à aparência facial, mas também dos aparelhos que são utilizados para tratamentos.
 
Muitos pacientes adultos não estão mais aceitando a utilização dos aparelhos metálicos nos tratamentos ortodônticos. Alguns, além de não gostarem da estética do sorriso metálico, também acreditam que a aparência fica infantilizada. Para alguns profissionais que trabalham, por exemplo, com consultoria, isso seria um aspecto negativo.
 
Essa demanda tem empurrado o profissional a utilizar aparelhos mais estéticos como os bráquetes de cerâmica e/ou safira, os bráquetes linguais, e mais atualmente, os alinhadores removíveis.
 
E qual o problema?
 
A questão é que muitos profissionais não se sentem seguros ao utilizarem essas três opções de tratamento.
 
Os bráquetes de cerâmica são muito friáveis, quebrando as aletas com facilidade, são de difícil descolagem, possuem maior atrito, além de outros problemas. Os fios estéticos utilizados conjuntamente, de forma geral, também deixam a desejar. Além de muitas vezes “descascarem” dificultam a movimentação dentária.
 
A técnica lingual, tem um custo alto, principalmente os aparelhos customizados digitalmente. A curva de aprendizado para dominar a técnica é grande e requer muito treinamento.
 
Os alinhadores apesar da grande evolução nos últimos anos ainda apresentam deficiências em casos mais complexos e, definitivamente, não são a solução mágica para todos os nossos problemas. Muitos pacientes não os utilizam de forma adequada, pois são removíveis. Além disso, também possuem uma curva de aprendizado alta, apesar do marketing das empresas vender a ideia de facilidade.
 
E qual a solução?
 
Considerando que os pacientes não vão mudar os seus conceitos de estética, cabe ao profissional dominar as técnicas de tratamento estético. Para isso deve compreender bem quais as suas limitações e, principalmente, como as superar.
 
Novos tempos, novos desafios!
 
Prof. Dr. Alexandre Moro
Editor Científico Adjunto
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Ortodontia Digital – Aplicações Práticas e Desafios
 
“Magis esse quam videri oportet”
 
Em novembro, teremos pela primeira vez um evento de grande porte em Curitiba, alavancado por um dos assuntos mais atuais e comentados da Ortodontia mundial. O Segundo Meeting da Editora Plena terá como pano de fundo a Ortodontia Digital com ênfase em alinhadores transparentes. Esse evento será fundamental para a nossa especialidade, em um momento de transição pelo qual passa a Ortodontia, listada como uma das profissões que iriam desaparecer no novo milênio na edição de maio de 2000 da Time Magazine. Apesar de ninguém ter se importado muito com essa previsão da Time na época, dezoito anos depois, muitos profissionais estão tendo motivos para preocupação ao verem seus clientes desaparecendo em busca de soluções mais rápidas, confortáveis, estéticas e que atendam às suas verdadeiras demandas.
 
Em meio a esse tema polêmico, a Ortodontia encontra-se polarizada. Como disse Bertrand Russel, “o problema do mundo moderno é que as pessoas inteligentes estão cheias de dúvidas e os imbecis cheios de certezas”. Assim se faz necessária uma reflexão que exclua os extremos apaixonados, tanto aqueles, que por conta de instabilidade emocional aliada à frágil formação acadêmica e cultural, queiram agredir de forma antiética seus colegas de profissão que pensam e fazem diferente, como aqueles deslumbrados e ingênuos, que se tornaram presa fácil do poder econômico exercido pelas grandes corporações, que atuam com o único propósito do lucro financeiro, sem maiores preocupações com a especialidade em si. Conforme caminhamos em direção ao equilíbrio, notamos que ambos os lados estão bem-intencionados, mas ao mesmo tempo, inseguros e muito ansiosos com os desdobramentos que a nossa profissão tem experimentado. Vamos observar os fatos!!!
 
A revolução tecnológica pelo qual passa a humanidade é progressiva, irreversível e afeta a todos sem distinção. Naturalmente, a Ortodontia está se alinhando com novos paradigmas que ganham força, embalados por inovações disruptivas que estão aparecendo a cada dia. Em poucos anos, muitas das profissões que existem hoje irão desaparecer e muitas outras serão criadas, e os ortodontistas que pretendem se manter no mercado de trabalho terão que se adaptar a essa “nova ordem”, em um processo de avaliação, diagnóstico e tratamento totalmente centrado no cliente 3,4,12.
 
O paciente nunca irá se importar com o quanto você sabe, até saber o quanto você se importa” (Terry Canale)8. Assim o momento pede uma mudança de mindset para uma abordagem menos dogmática e paternalista e que atenda de fato os desejos dos nossos clientes. As pessoas procuram um ortodontista muito mais pela sua afabilidade e acessibilidade do que por suas habilidades técnico-científicas e o maior objetivo de um tratamento ortodôntico é a satisfação do cliente, devendo-se canalizar todos os esforços para atender a essas expectativas. Precisamos entender que esses novos consumidores estão comprando um “aprimoramento” em sua aparência (e/ou de seus filhos), com a expectativa de melhora em suas potencialidades no campo social, intelectual, afetivo e de trabalho e não estão buscando tratamento para uma “doença”. Assim crenças nucleares em falsas premissas irão diminuir o potencial de um negócio e limitar o acesso de pessoas ao tratamento, reduzindo dessa forma o seu market share. Em outras palavras, objetivos de tratamento para um cliente podem não ser desejáveis ou alcançáveis para outro, e o profissional deve estar atento para não confundir a “sua queixa principal” com a queixa principal dos seus clientes.
 
Muitas alterações morfológicas decorrentes do processo de crescimento e desenvolvimento das estruturas do terço inferior da face podem realmente estar associadas a deficiências funcionais importantes na mastigação, fala e respiração ou a distúrbios musculoesqueléticos com graves consequências para a qualidade de vida. Por outro lado, inúmeros indivíduos que não apresentam uma “oclusão ideal”, mas funcionalmente estável, gostariam apenas de ter seu sorriso aprimorado do ponto de vista estético. E é esse potencial que a Ortodontia passa a ter com as inovações tecnológicas, de construir sorrisos harmoniosos e funcionais com abordagens mais objetivas, rápidas e confortáveis, possuindo grande impacto no bem-estar das pessoas e definindo o atual “Paradigma da Qualidade de Vida”. Assim “saúde ortodôntica” passa a ser um conjunto de características dento-maxilofaciais consistentes com um completo estado de bem-estar biopsicossocial, fazendo com que cada caso deva ser avaliado de forma totalmente personalizada, evitando-se ao máximo a aplicação de “normas dogmáticas” ou “regras arbitrárias” baseadas em médias obtidas em amostras com grande variação individual1,6,11. Nesse novo contexto, há que se fazer uma distinção entre os inúmeros casos que podem se beneficiar de procedimentos customizados por meio de sistemas CAD/CAM, em uma abordagem mais simplificada com alinhadores transparentes, por exemplo, dos casos complexos e que requerem uma abordagem interdisciplinar mais sofisticada. O profissional capacitado para realizar essa classificação de forma adequada, sem dúvida é o especialista em Ortodontia e Ortopedia Facial, que agora conta com um grande avanço tecnológico no processo de diagnóstico e decisão terapêutica, que são as imagens tridimensionais as quais representam a anatomia real dos indivíduos e que são obtidas por meio da TC Cone-beam, do escaneamento de face e da oclusão dentária ou são obtidas por scanners intraorais5,7,9. Após um correto diagnóstico, o caminho natural é uma decisão terapêutica adequada e em sintonia com as novas demandas dos consumidores de serviços em Ortodontia. Os casos que podem se beneficiar de tratamentos simplificados disfrutarão das vantagens de dispositivos terapêuticos virtualmente invisíveis, mais confortáveis e com resultados rápidos e mais previsíveis2,10.
 
Quem deverá se manter no mercado e eventualmente ter mais sucesso, e quem deverá mudar de profissão em breve? Apesar de essa não ser uma resposta fácil, ao que parece, os profissionais que irão se manter no mercado serão os que primeiro entenderem a importância do papel das novas tecnologias como auxiliares fundamentais em todo o processo, desde as fases inicias de diagnóstico e planejamento como nas fases mais avançadas do tratamento. Esses profissionais serão os que continuarão em um constante processo de aprimoramento científico, intelectual e cultural, de forma a passarem aos seus clientes a percepção de que “vendem” algo extremamente valioso e indispensável, que é a sua capacidade de decisão terapêutica e o seu comprometimento. A tecnologia hoje nos presenteia com ferramentas de eficiência sem precedentes, porém ainda não inventaram um algoritmo capaz de tomar decisões em benefício dos clientes, nem existe ainda um androide com inteligência artificial suficiente para interagir com os nossos clientes. Fica, portanto, para os profissionais mais habilitados e bem formados a virtude da interação social, da empatia e do querer bem. E essa troca de energia, tão fundamental em nossa profissão, que transforma sorrisos e vidas e nos deixa a todos extasiados é que vai permanecer, sendo o nosso ativo mais valioso nos dias que estão por vir.
 
Fica o convite para que todos possam participar dessa discussão durante o 2º Meeting da Editora Plena que acontece em Curitiba, e que certamente será muito importante para os rumos da Ortodontia. É uma oportunidade imperdível para que essa troca de ideias aconteça em um ambiente acadêmico, respeitoso e digno da mais antiga das especialidades da Odontologia e não em redes sociais de forma exibicionista e inconsequente.
 
Referências
1. Ackerman JL, Proffit WR, Sarver DM. The emerging soft tissue paradigm in orthodontic diagnosis and treatment planning. Clin. Orthod. Res. 1999; 2(2):49-52.
2. Ackerman MB, Ackerman JL. Smile analysis and design in the digital era. J. clin. orthod. 2002; 36(4):221-36.
3. Ackerman MB. Enhancement orthodontics: Theory and practice: Blackwell Munksgaard; 2007.
4. Ackerman M, Burris B. Straighter: The Rules of Orthodontics. 1st ed. United States of America: Drs Marc Ackerman & Ben Burris; 2017. 116 p.
5. Accorsi MAO, Meyers D. Novos conceitos na ortodontia contemporânea. Ortho sci: orthod. sci pract. 2011; 4(16):888-98.
6. Accorsi M, Velasco L. Diagnóstico 3D en ortodoncia: Tomografía cone-beam aplicada: Amolca. 2014.
7. Cunningham SJ, Hunt NP. Quality of life and its importance in orthodontics. J. orthod. 2001.
8. Ha JF, Longnecker N. Doctor-patient communication: a review. The Ochsner Journal. 2010; 10(1):38-43.
9. Hans MG, Palomo JM, Valiathan M. History of imaging in orthodontics from Broadbent to cone-beam computed tomography. Am. j. orthod. and dentofacial orthop. 2015; 148(6):914-21.
10. Pacheco-Pereira C, Brandelli J, Flores-Mir C. Patient satisfaction and quality of life changes after Invisalign treatment.Am. j. orthod. and dentofacial orthop. 2018; 153(6):834-41.
11. Rino Neto J, Accorsi M, Ribeiro ANC, Paiva JBd, Cavalcanti MGP. Imagens craniofaciais em ortodontia: o estágio de desenvolvimento atual da documentação ortodôntica tridimensional. Ortodontia. 2006; 39(2):144-54.
12. Twenge JM, Campbell WK, Freeman EC. Generational differences in young adults’ life goals, concern for others, and civic orientation, 1966–2009. J. personality and social psychology. 2012; 102(5):1045.
 
Prof. Dr.Mauricio Accorsi
Presidente do 2º Meeting Plena de Alinhadores

 

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