Editorial Prosthesis and Esthetics in Science – Edição 35

Alerta e desabafo

Com a devida vênia, reservo o direito de me manifestar sobre conceitos de beleza e a atuação do cirurgião-dentista “especialista em estética” em tempos de culto extremo à beleza e padrões impostos pelas redes socais. Vivemos num tempo em que a saúde oral da população tem sinais de melhora importante. Uma vez que a saúde parece estar em boas condições e sob controle, os pacientes se voltam agora, mais fortemente, para a buscade procedimento subjetivos estéticos e cosméticos.

O bombardeio de informações pela mídia e um sem número de postagens nas redes sociais têm induzido as pessoas a idealizarem um padrão estético muitas vezes irrealizável. Cabe ao cirurgião-dentista, em posse de conceitos sólidos de normas estéticas e domínio de técnicas e materiais, orientar os pacientes em relação ao que é possível, exequível e realmente satisfatório em termos de se obter um sorriso com características da personalidade do paciente, com harmonia e expressão natural do belo.

O profissional da Odontologia deve estar munido de conhecimento teórico, treinamento prático e habilidade técnica para conduzir o tratamento, principalmente naqueles detalhes que o paciente não tem possibilidade de ver, mas que é responsabilidade do profissional de controlar e obter os melhores efeitos possíveis.

Não nos deve ser permitida a venda de sorrisos plastificados e cair na cilada de criar verdadeiras “portas de geladeira”, despencando no abismo dos desejos e expectativas irreais dos pacientes. Vemos um mar de sorrisos estandardizados, monótonos, sem atrativos, como se tivessem todos saído de uma linha de montagem industrial. Não raro, somos procurados por pacientes que receberam estas “portas de geladeira”, na busca para remover aquilo que inadvertidamente aceitaram como belo. Alguns relatam terem desenvolvido constrangimento ao sorrir, pela artificialidade de seus dentes e seu sorriso.

Cabe a nós, possuidores de conceitos e critérios técnicos, balizar nossos pacientes para que não caiam no abismo do exagero e da artificialidade, obedecendo à exigência efêmera imposta pela moda.

Os procedimentos estéticos com as modernas cerâmicas e materiais de adesão nos oferecem a oportunidade de criar sorrisos com harmonia e beleza, modificando formas, corrigindo alterações colorimétricas e de posicionamento.

Na busca incessante de mínimo preparo, máxima estética e máxima resistência, a verdade é que nem sempre podemos alcançar o máximo de cada um destes três requisitos aplicados de uma só vez no mesmo trabalho restaurador. Há uma evolução extremamente dinâmica de materiais como porcelanas e materiais para adesão, mas por trás de tudo, de técnicas e de materiais, existe o profissional para conduzir o planejamento e a execução do tratamento de forma ética, consciente e em sintonia com a exigência do paciente.

Uma vez determinado o desenho final do novo sorriso, passa-se ao planejamento de “se”, “quanto” e “onde” serão feitos os preparos. A preocupação é sempre direcionada para um preparo minimamente invasivo, preservando-se ao extremo os tecidos, produzindo desgaste somente aonde for extremamente necessário.

Antes de mais nada, devemos considerar que “a mais pura manifestação do belo é a saúde”. Temos recursos e conhecimento de normas estéticas, cosmética e de visagismo, ainda que de forma intuitiva, para construir sorrisos estéticos, naturais, funcionais e altamente atraentes, sem descuidarmos de estarmos alinhados com as exigências da sociedade contemporânea. Sabemos como respeitar e criar sorrisos que guardam sinais da personalidade de seu portador.

Corremos o risco de, em busca do extremo estético, caminharmos do luxo ao lixo, refém de expectativas irreais não factíveis, vendidas por padrões plastificados, artificiais e exagerados. Há que se considerar que o valor estético é manifestado pela harmonia e equilíbrio de todo o conjunto e esta deverá ser a busca do profissional nos procedimentos estéticos. Deve-se ter claro na memória a máxima que “O compromisso com expectativas irreais estimula a emoção, mas frustra a razão”.

Prof. Dr. Sergio Ourique
Conselheiro Científico

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