Editorial Prosthesis and Esthetics in Science – Edição 38

O vitiligo é uma das doenças mais intrigantes da história da humanidade, também uma das primeiras identificadas, 4 mil anos atrás, com o primeiro relato em 2.200 AC no território que hoje é o Irã. O vitiligo também está descrito na Bíblia como uma doença chamada em Hebreu de Tzaarat. O nome vitiligo foi primeiramente usado no primeiro século DC e a raiz latina pode significar defeito ou mancha branca de bezerros. Consiste em manchas brancas que podem afetar desde uma pequena parte do corpo até atingir todo o tegumento. A prevalência da doença no Brasil é estimada em 0,5% e na Índia em mais de 1,5% da população, e é uma doença autoimune onde ocorre um ataque de células de defesa, chamadas linfócitos T, contra os melanócitos (células que produzem a coloração de nossa pele, melanina). Os pacientes apresentam uma tendência genética ao vitiligo, os melanócitos dos pacientes apresentam substâncias estranhas chamadas autoantígenos que fazem com que o sistema imunológico os ataque, além disso, os melanócitos entram em estresse oxidativo mais facilmente, liberando substâncias que fazem com que os linfócitos achem que são inimigos e os destruam. O vitiligo é uma doença órfã de remédios desenvolvidos especificamente para ela, e nenhum remédio foi aprovado pela Food and Drug Administration (FDA), principal órgão regulador de remédios do mundo. Um dos problemas que levaram a isso é que ela foi estigmatizada como sendo somente uma doença cosmética, quando, na realidade, além do grande dano que o paciente tem em sua autoestima, os afetados tem maior propensão a ansiedade e a depressão. Dermatologicamente falando, a falta de melanina na pele faz com que os pacientes tenham maior tendência a queimaduras, envelhecimento cutâneo e a formação de lesões pré-cancerígenas de pele. O vitiligo também é uma doença sistêmica, com alguns pacientes podendo apresentar diminuição da audição e inflamação nos olhos. Além disso, aproximadamente 15% dos pacientes de vitiligo tem alguma doença de tireoide associada. O principal tratamento para o vitiligo continua sendo a fototerapia com UVB de banda estreita, que, além de destruir os linfócitos que estão atacando os melanócitos, fazem com que os melanócitos que estão próximos à área afetada migrem para as manchas brancas, e os melanócitos que estão na base dos pelos migrem para a epiderme.

As estratégias que vêm sendo desenvolvidas para o tratamento da doença são dirigidas a proteínas que inibam o ataque aos melanócitos os remédios são a base de cremes, comprimidos e injetáveis, desenvolvidos a partir de engenharia genética, imunobiológicos, pequenas moléculas e fitoterápicos. Hoje em dia posso afirmar que finalmente os grandes laboratórios farmacêuticos se deram conta da importância da doença e estão investindo na busca de remédios inovadores. Os próximos anos serão não só de esperança, mas de júbilo e efetividade no tratamento.

Prof. Dr. Caio de Castro

– Doutor em Ciências da Saúde-PUCPR;
– Professor de Dermatologia da PUCPR;
– Coordenador do ambulatório de vitiligo da Santa Casa de Curitiba;
– Ex-Coordenador na América Latina do Consenso Mundial em Vitiligo.

 

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